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Adelto Gonçalves (*)

04/08/2008

LETRAS AFRICANAS -

Ondjaki: a reinvenção da linguagem

I

Nascido em Luanda em 1977, Ondjaki, licenciado em Sociologia, prosador, às vezes poeta e roteirista de documentários, já pouco tem a ver com a literatura de afirmação nacional nascida à época da independência de Angola em que se destacaram Agostinho Neto (1922-1979) António Jacinto (1924-1991), Uanhenga Xitu (1924), António Cardoso (1933), Luandino Vieira (1935), Arnaldo Santos (1935), Manuel Rui (1941), Jorge Macedo (1941), Pepetela (1941), Boaventura Cardoso (1944), David Mestre (1948), Kudijimbe (1955) e outros.

Àquela época, anos 60-70, quase todos os poetas e romancistas angolanos viveram dramas pessoais ligados ao compromisso político com a independência de Angola -- a maioria engajou-se no movimento de libertação nacional dentro e fora do país e muitos deles tiveram de cumprir pesadas penas de reclusão, cujas experiências se refletiram no que escreveram.

Com o fim do colonialismo, a maioria acabou por abdicar de sua liberdade pessoal para ajudar no que entendiam que seria a construção do país, tornando-se, assim, funcionários do Estado pretensamente socialista. Antes de escritores, comportaram-se como soldados de um regime que prometia o paraíso na terra. Muitos deles, valeram-se das boas relações do novo regime com os países do Leste Europeu -- que era o que lhes estava à mão -- para completar suas formações acadêmicas ou, simplesmente, participar de encontros internacionais de jovens escritores na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ou em países asiáticos ou em outras nações africanas.

Como se sabe, uma boa forma de ressecar a capacidade criativa de escritores é atrelá-los às chamadas razões de Estado. Não que as causas, à época, fossem injustas ou sem méritos. Pelo contrário. Mas é que, passada a euforia da independência, toda revolução tende a cristalizar-se com a sedimentação dos interesses daqueles que chegaram primeiro ou mais longe na máquina burocrática do Estado.

E não há escritor, por mais imaginativo e inventivo que seja, que possa produzir literatura de alta qualidade se, em vez de engajar-se apenas com a sua própria consciência, passa a defender as idéias ou os interesses das lideranças de um partido ou de um segmento político. Foi o que ocorreu, por exemplo, com os romancistas Jorge Amado (1912-2001) e Graciliano Ramos (1892-1953) à época em que escreviam romances e outros textos sob a orientação implícita do Partido Comunista Brasileiro.

De qualquer maneira, as amarras ideológicas, se impedem o afloramento da consciência crítica, não são suficientemente tenazes a ponto de bloquear por completo a capacidade criativa, pois algo sempre escapa. Afinal, é possível encontrar-se períodos de alta qualidade até mesmo em panfletos de Jorge Amado, como O Cavaleiro da Esperança, biografia do líder comunista Luís Carlos Prestes (1898-1990), publicada em 1944, ou em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos (1892-1953), publicação póstuma de 1953 que, como se sabe agora, teve vários parágrafos cortados por familiares do escritor para atender à orientação do PCB à época “em nome da causa”.

Por essa razão, como observa Luis Kandjimbo, notável ensaísta e crítico literário de Angola, entre os escritores angolanos que surgiram no bojo do movimento de independência do país na década de 1970, “há uma descontinuidade observável na escrita de ficção e nos padrões estéticos, provocada pela excessiva valorização de temas literários marcados pela ideologia política e sua introdução nos manuais escolares”. Se isso hoje já soa como excessivamente datado e, muitas vezes, como uma forma ingênua de se fazer literatura, por outro lado, é de admitir que essa subserviência à “causa” tampouco foi capaz de impedir o afloramento de uma literatura de boa qualidade da qual os escritores mais recentes são tributários.

II

Nascido já em país independente, Ondjaki, naturalmente, não podia carregar dentro de si o sentimento anticolonialista, tendo sua infância sido embalada pelas invectivas pretensamente revolucionárias que permeavam a educação popular promovida pelo governo de seu tempo. No entanto, embora já nascido livre do colonialismo -- mas não do triste espetáculo da opressão das minorias ricas sobre as maiorias deserdadas --, pôde seguir outro rumo em sua atividade literária, ainda que não deixe de repetir experiências que, décadas antes, já haviam sido vividas por Luandino Vieira e outros romancistas inventivos da Angola da década de 1970, já que os musseques (favelas), os jogos de futebol nos terrenos baldios, as feiras populares e a vida dos pés-descalços continuavam a fazer parte do cotidiano da Luanda de sua infância e adolescência, como fazem ainda hoje.

Em seu terceiro romance, AvóDezanove e o segredo do soviético, publicado em 2008 pela Editorial Caminho, de Lisboa, e pela Editorial Nzila, de Luanda, seguindo os caminhos abertos por Luandino Vieira, Antônio Cardoso, Manuel Rui, Antônio Santos e outros, que já haviam rompido com a influência do padrão literário de Portugal, Ondjaki pôde dar vazão outra vez a todas as angolanidades que sua memória retém dos anos 80, marcada principalmente pela presença de soldados, professores e técnicos soviéticos e cubanos deslocados para Angola dentro do contexto da Guerra Fria.

Esse mundo, como se sabe, desapareceu ao final de 1989 com o desmoronamento do regime soviético e a dissolução da URSS. Portanto, as memórias de Ondjaki são anteriores aos seus 12 anos de idade, como se percebe pela passagem em AvóDezanove e o segredo do soviético em que se refere a gigantescas obras do Mausoléu na Praia do Bispo, “um lugar que andavam a construir para guardar o corpo do camarada presidente AgostinhoNeto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nessa arte de manter uma pessoa ainda com boa aspecto de se olhar”.

Entre as personagens, há, naturalmente, várias dessas figuras estranhas ao lugar, como o Camarada Botardov, corruptela de boa-tarde, a maneira arrevesada como um russo cumprimentava as pessoas de manhã cedo ou já à noite: bótard. Portanto, ao contrário de seu romance de estréia, Bom dia camaradas, publicado em Angola pela Edições Chá da Caxinde em 2000, em Portugal pela Editorial Caminho três anos depois e no Brasil em 2006 pela Editora Agir, do Rio de Janeiro, com prefácio do romancista Luiz Ruffato (1961), em que uma criança conta seu dia-a-dia, seu convívio com os amigos e com os professores cubanos que ensinavam na escola, em AvóDezanove e o segredo do soviético, é a presença dos russos a sua marca principal, fatos que, até agora, ao que se sabe, talvez porque ainda recentes, ainda não haviam sido registrados pela ficção angolana. Eis, afinal, o que diferencia o jovem escritor Ondjaki de seus antecessores em Angola. E que o levou a já estar traduzido para outros seis idiomas.

Em AvóDezanove e o segredo do soviético, pode-se perceber, no entanto, aqui e ali resquícios deixados pela convivência com os cubanos, especialmente em alguns vocábulos. Afinal, os cubanos -- soldados, técnicos e professores -- estiveram em Angola de 1975 a 1991, transmitindo expressões que foram incorporadas à linguagem popular. É de assinalar que Ondjiaki guarda boas lembranças dessa presença, especialmente de seus professores cubanos, aos quais se refere como pessoas “muito dignas, com um sentido de irmandade muito forte”.

III

Seja como for, apesar dessa abordagem inusitada ao olhar de fora, não deixa Ondjaki também de seguir uma tradição na língua portuguesa que vem de poetas setecentistas como Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), que sempre que podia criava um neologismo ou inventava um verbo a partir de um substantivo, passando por romancistas brasileiros como Guimarães Rosa (1908-1967), que recriou o linguajar falado nos sertões de Minas Gerais e Goiás, chegando ao exemplo atual do moçambicano Mia Couto (1955).

Assim é que se lê em AvóDezanove e o segredo do soviético que há “peixes devagarosos no mar” ou que as pessoas vão “matabichar” (tomar o pequeno almoço, em Portugal, ou o café da manhã, no Brasil), o que denota a preocupação do autor em reinventar a linguagem popular angolana que já não está presa ao padrão lusitano do bem-falar, mas que, permeada por expressões do quimbundu, língua do grupo bantu de Angola, não deixa de ser uma variante auspiciosa do português. E uma garantia de que o idioma haverá de ser preservado por muito tempo no continente africano.

A exemplo dos romancistas angolanos mais antigos, Ondjaki não passou ao largo da influência da literatura brasileira. Em AvóDezanove e o segredo do soviético deixa explícitas suas dívidas literárias com Clarice Lispector (1920-1977), que está presente do começo ao fim do livro, não só com uma epígrafe tirada de um trecho de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969), mas na abertura de uma carta dirigida pela poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares (1952) ao autor, num diálogo em que ambos recordam a Luanda de suas vidas e de seus sonhos (“uma serra antiga, o cheiro da goiaba, meninas e missangas”, diz a poeta).

Como já assinalou Luiz Ruffato, pode-se desconfiar de que Ondjaki também já andou lendo os brasileiros Manoel de Barros (1916), Adélia Prado (1935) e Raduan Nassar (1937), além de poetas canonizados como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Manuel Bandeira (1886-1968). Mas isso pode ser também resultado da mania que todos os críticos literários temos de classificar e rotular autores, colocando-os dentro de gaiolas metafóricas.

Ainda que tenha produzido um relato lírico e, ao mesmo tempo, divertido, Ondjaki não deixa de permear seu livro com uma certa ironia em relação ao poder ilimitado do regime de partido único, ao colocar uma personagem a dizer que o JornalDeAngola não publicava mentiras, mas “verdades que o camarada presidente é que autoriza a saírem lá”.

Em resumo: a exemplo do romance de estréia, Bom dia camaradas, e de seu segundo romance, Quantas madrugadas tem a noite (Lisboa, Editorial Caminho, 2004), AvóDezanove e o segredo do soviético trata-se de uma autobiografia ficcionalizada, em que o autor recria tipos que povoaram sua infância, numa Luanda que ainda está lá com seus bairros degradados em meio a uma urbe que já se mostra moderna e que pode soar familiar não só ao leitor brasileiro, mas também ao português que, nos últimos anos, acostumou-se a conviver com uma extensa colônia de angolanos e outros africanos que transformaram o dia-a-dia de cidades periféricas de Lisboa, como Oeiras, Agualva-Cacém, Odivelas e outras, deixando-as menos européias e mais africanas.

IV

Ondjaki, que em umbundu significa “guerreiro”, é o nome literário de Ndalu de Almeida, descendente de portugueses e angolanos que ainda carrega em sua árvore genealógica um bisavô cônsul holandês. É, portanto, um exemplo perfeito da mestiçagem que caracteriza o povo angolano. Além de desenvolver estudos de doutoramento na Universidade Oriental de Nápoles, Ondjaki escreve textos para o cinema e já co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda (Oxalá cresçam Pitangas – histórias de Luanda, 2006). É membro da União dos Escritores Angolanos.

Além dos romances Bom dia camaradas e Quantas madrugadas tem a noite, escreveu a novela O assobiador (2002), os livros de contos Momentos de aqui (2001) e E se amanhã o medo (2004), o livro de narrativas curtas Os da minha rua (2007) e ainda os livros de poesia Actu sanguíneu (2000) e Há prendisajens com o xão (2002) e a obra infanto-juvenil Ynari, a menina das cinco tranças (2004). Interessa-se ainda por interpretação teatral e pela pintura.

Alguns livros seus foram traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês e chinês.Com Actu sanguíneu obteve menção honrosa no Prêmio Antônio Jacinto (Angola, 2000). Já com E se amanhã o medo, conquistou o Prêmio Sagrada Esperança (Angola, 2004) e o Prêmio António Paulouro (Portugal, 2005). Foi finalista do prémio Portugal Telecom (Brasil, 2007). Com Os da minha rua, ganhou o Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco, de 2007, em Portugal.

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AVÓDEZANOVE E O SEGREDO DO SOVIÉTICO, de Ondjaki. Lisboa: Editorial Caminho, 198 págs., 2008, 12,90 euros. Luanda: Editorial Nzila. www.editorial-caminho.pt

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), entre outros. E-mail: adelto@unisanta.br

 

LETRAS

Montezuma, o lampadário de Lisboa

I

Com exceção do suplemento Das Artes, Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, que vem publicando todas as semanas seus artigos póstumos, partiu do Brasil -- mais especificamente de Goiânia, no cerrado do Centro-Oeste -- a primeira homenagem à memória de Joaquim de Montezuma de Carvalho (1928-2008), falecido a 6 de março. E veio em forma de poema, “Joaquim de Montezuma de Carvalho, o lampadário de Lisboa”, de autoria de Gabriel Nascente (1950), que faz parte do livro A poesia de Gabriel Nascente em Portugal, que reúne ainda dois textos do pensador português e um deste articulista sobre a arte do poeta goiano, todos publicados no Primeiro de Janeiro, além de parte da correspondência trocada entre ambos nos últimos anos.

Embora não tenha conhecido pessoalmente Montezuma de Carvalho, Nascente solidificou sua amizade com o escritor português a partir de uma correspondência epistolográfica assídua nos últimos tempos. Avesso à correspondência digital pela Internet, assim como Nascente, Montezuma, como fazia com a maioria de seus amigos, engordava suas cartas com fotocópias de textos e ilustrações que, geralmente, “descobria” em suas pesquisas no Arquivo Histórico Militar, de Lisboa, em frente à Estação de Santa Apolônia, que fica a escassos 200 metros da Rua dos Remédios, na Alfama, onde morava.

Em junho de 2007, foi com grande entusiasmo que Montezuma recebeu o livro Viagem às criptas de Dante, que traz um longo poema de Nascente, além de apresentar na contracapa um trecho do artigo com que o crítico recebeu o livro anterior do poeta, a antologia Inventário Poético (Goiânia, Editora Alternativa, 2005). “A chispa de Dante tocou este poeta do interior do Brasil”, diz Montezuma logo nas primeiras linhas da recensão que fez ao livro, considerando-o “um poemário de grande poder sugestivo e fruto de um talento recriador”.

O que também chamou a atenção de Montezuma, além da beleza dos versos, foi a referência no Canto Segundo ao lago Bulicame:

(…) É certo, eu me ia; e, me indo,

naquele lago -- o Bulicame, fumegante --

após o Cocito, gelado, um susto tive,

ao ouvir de Farinata, tão agros vaticínios,

de minha volta à luz dos páramos. (...).

Lembrando-se logo de Boliqueime, a terra algarvia do atual presidente da República portuguesa, o professor doutor Aníbal Cavaco Silva, Montezuma deslocou-se ao sempre à mão Arquivo Histórico Militar. Haveria alguma relação entre o Bulicame de Dante e o Boliqueime (ou Boliquême, que assim também se escreveu por algum tempo)? Encontrou uma pista no Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular, de Américo Costa, v.3, de 1932, ligando bulicame a “olhos d´água”.

Depois, num dicionário da lingua italiana, constatou que bulicàre significa o bulir da água. Logo, concluiu que, se os genoveses, sicilianos e venezianos nos séculos XIII, XIV e XV andavam em contínua faina de pesca de atum e baleia nas costas do Algarve, principalmente em Lagos, Boliqueime foi nome dado pelos italianos à aldeia portuguesa.

Depois, constatou que Nascente buscou inspiração no Canto Décimo Quarto da Divina Comédia, que constitui o sétimo círculo do “Inferno”, onde habitam os homens violentos:

(…) Qual do Bulicame sai um regato cuja água

as meretrizes dividem entre si, tal aquele rio

descia através da areia do terceiro girão. (…).

II

De livro em livro, constatou que Boliqueime e Bulicame são a mesma coisa. E intuiu o que ninguém, ao que se saiba, antes assinalara: a origem italiana (antes da existência da Itália como nação organizada) do povoado algarvio. Foi o que escreveu no ensaio “O Buliqueime de Dante e o de Aníbal Cavaco Silva… e a sombra de Maquiavel”, publicado no suplemento Das Artes, Das Letras d´O Primeiro de Janeiro, de 25/6/2007, a uma época em que Montezuma já se encontrava mal de saúde, com saídas constantes de casa para fazer exames médicos ou ir ao hospital, como me confidenciou por telefone a 25/7/2007, uma quarta-feira, data de nossa última conversa.

O poemário, porém, tanto o entusiasmara que voltaria ao assunto, com o ensaio “Viagem às Criptas de Dante com Gabriel Nascente, Teixeira de Pascoaes, Murilo Mendes, Ludovico Silva, Fidel Castro, Frei Betto…”, publicado a 10/9/2007, no qual diz que se trata de “um poema a causar calafrios”. Afirma: “Vejo-o como uma condensação superior da Divina Comédia de Dante (1265-1321), o vasto poema sacro a descrever Inferno, Purgatório e Paraíso, os três territórios dogmáticos da religião católica e não só (a pulsar também com os evangelistas das religiões reformadas após Lutero e outros, com os muçulmanos e alguns mais geógrafos do nosso além-morte)”.

E acrescenta: “Ele substantivou o seu denso e agônico poema com a receita proposta por Dante, não a de usarem quaisquer palavras mas só aquelas com o poder musical de reproduzirem as imagens malignas ou benignas do outro-mundo. Gabriel Nascente, decerto sem o saber mas com o talento inato do artista de o saber, seguiu os passos de Dante no Canto XXXII do Inferno, a indicarem a necessidade de se encontrarem rimas ásperas e roncas como símile das realidades”.

Transcreve-se aqui estes rasgados elogios não só para dar a dimensão da importância do trabalho poético de Gabriel Nascente -- nem sempre reconhecido no eixo intelectual de Rio de Janeiro e São Paulo -- como para oferecer ao leitor, que não teve ainda a oportunidade de conhecer um pouco da obra de Montezuma, uma amostra de seu estilo barroco, que muito faz lembrar o do padre Antônio Vieira (1608-1697), na mesma explosão de idéias e imagens que só mesmo aqueles autores extremamente eruditos são capazes de produzir.

III

Montezuma de Carvalho nasceu na freguesia de Almedina, em Coimbra, em cuja Faculdade Direito se licenciou. Filho do filósofo Joaquim de Carvalho (1892-1958), com o diploma debaixo do braço, mudou-se para Angola e Moçambique onde exerceu funções nos registros e na magistratura (Nova Lisboa, Inhambane e Lourenço Marques) até 1976, quando retornou a Portugal para exercer a advocacia em Lisboa.

Em 1951, ainda estudante, tomou a iniciativa de homenagear o poeta Teixeira de Pascoaes (1877-1952), publicando o livro coletivo A Teixeira de Pascoaes, a exemplo do que fez recentemente em relação a Eugénio de Andrade (1923-2005), com textos de autores que convidou para a tarefa. Os textos também foram publicados no suplemento Das Artes, Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro e, depois, transformados no livro A Jeito de Homenagem a Eugénio de Andrade (Porto, Fólio Edições, 2004).

Em 1957, lançou em Angola Epistolário Ibérico: Cartas de Pascoaes e Unamuno. Em 1958, organizou os livros Joaquim de Carvalho no Brasil e Miscelânea de Estudos a Joaquim de Carvalho. Fundou, ainda, na Figueira da Foz, a Biblioteca-Museu Joaquim de Carvalho e a Sala Joaquim de Carvalho, esta última ligada à Biblioteca Municipal.

De 1958 a 1965, financiado pelo município de Nova Lisboa, Angola, organizou e publicou os quatro tomos do Panorama das Literaturas das Américas, de 1900 à Actualidade, obra até hoje sem equivalente na sua dimensão global e na qualidade de seus colaboradores diretos. Em 1965, apresentou os escritores luso-brasileiros nascidos no século XX na obra francesa Ecrivains Contemporaine (Paris, Ed. Mazenod). Em 1963, fez parte do júri internacional que atribuiu ao mexicano Octavio Paz o Grande Prix de Poésie, prêmio belga.

No Brasil, colaborou especialmente nos diários O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e A Tribuna, de Santos. Colaborou ainda em numerosas revistas do Brasil e da Argentina. Sua última colaboração saiu na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, nº 53, out.-dez.2007, pp.169-179, o artigo “Os três sepulcros de Viriato e a sua ressurreição”, que, provavelmente, não chegou a ver, já que só nos últimos dias a instituição distribuiu para seus colaboradores os seus três últimos números.

Publicou e organizou numerosos livros, entre os quais Sor Juana Inês de la Cruz e o Padre Antônio Vieira (1998) e Cervantes em Portugal (2005). Em 2004, a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra deu à estampa Drummond e os portugueses -- Drummon (D) Tezuma: correspondências entre Carlos Drummond de Andrade e Joaquim de Montezuma de Carvalho, organizado por Maria Aparecida Ribeiro e Eliane Vasconcelos.

IV

Diante dos elogios de Montezuma a Gabriel Nascente, está claro que nada mais é necessário acrescentar aos dois livros aqui resenhados. Por isso, melhor aproveitar o espaço com a reprodução de um trecho do poema de nove cantos “Joaquim de Montezuma de Carvalho, o lampadário de Lisboa” que Nascente fez em homenagem póstuma ao pensador português:

(…)Ó grande Montezuma de Carvalho, o maquinista

das grandes expressões neo-revolucionárias -- a guiares

o trem de textos pelas vagas do louco tempo:

uí, uíí, uííí… A bordo desse périplo, vultos

imortais viajam, em elos de amizade terreal --

Borges, Bandeira, Paz, Drummond, Cortázar, Gabito,

e outros íncolas da eternidade.

Tu não és ficção, nem metáfora lorquiana (que se

sangra entre touradas, pelas cáveas da lua).

És Pã, zagal dos vocábulos.

A palavra é o teu bordão. Ó alvenel de frases,

que engendras livros aos sopros da grei

Camoniana dos Garret , dos Junqueira, dos

Queiroz, dos Pessoa, dos Andrade e dos Quental.

Enfezado, tufão, cospes

Suavidades impressionistas. (…)

(…) Ah, Portugal, ufanas-te deste luso-coimbrão-letrado

Que arranca o sol das estalactites da alma. (…).

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A POESIA DE GABRIEL NASCENTE EM PORTUGAL (ensaios críticos), de Joaquim de Montezuma de Carvalho. Goiânia, Editora Kelps, 112

págs., 2008.

VIAGEM ÀS CRIPTAS DE DANTE (poema), de Gabriel Nascente. Goiânia: Editora Kelps, 56 págs., 2007.

E-mail: kelps@kelps.com.br

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POESIA

Camilo Pessanha: os mitos destruídos                                                             

I

Que as histórias de vida de nossos grandes poetas sempre andaram mal contadas, ninguém duvida. Que muitos foram vítimas de historiadores literários apressados, que preencheram com a imaginação as lacunas que a falta de documentos deixava, também já se sabia. Agora, que outros foram alvo de picuínhas ou vinganças tardias de que já não puderam se defender só o tempo, senhor da razão, vai deixando perceber.

É caso de Camilo Pessanha (1867-1926), um dos maiores representantes do Simbolismo português, de quem Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acaba de lançar um esboço biográfico (vida e obra) pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa: O essencial sobre Camilo Pessanha, dentro de uma coleção que vem recolhendo o fulcro do pensamento de várias personalidades intelectuais da vida portuguesa.

De Camilo Pessanha, antes de prosseguir, é preciso lembrar que, nascido em Coimbra, filho de um estudante de Direito e de sua governanta, embora registrado como de pai incógnito, viveu com os progenitores nos Açores e, depois, no Lamego. Formado em Coimbra em 1891, foi aprovado em concurso para lecionar no recém-criado Liceu de Macau, para onde viajou em 1894, lá ficando até a morte. Desde então, em Portugal só esteve durante  apenas quatro curtos períodos, valendo-se de licenças médicas.

II

Que muitas informações de que se tinha conhecimento não batiam com outras que andavam espalhadas por testemunhos dispersos, já se sabia. E, portanto, tudo isso causava desconfiança. Tanto que todo crítico consciencioso sempre procurava ressaltar esses dois ângulos antagônicos: de um lado, a personalidade abúlica que se atribuía ao poeta, alguém que, no exílio voluntário em Macau, precisava do estímulo do ópio para fugir de um meio medíocre; de outro, o homem realizado profissionalmente que, influente e reconhecido na fechada sociedade portuguesa da colônia, chegara a juiz e a membro de uma loja maçônica e que, a um ano de sua morte por tuberculose, fora nomeado reitor substituto do Liceu Português.

Convenhamos que alguém andasse pelas ruas de Macau com sua figura esquálida, de saúde frágil e longas barbas negras, como um molambento, certamente, não chegaria tão longe. Portanto, algo devia andar errado nos estudos biográficos que se conhecia.

Foi, portanto, para passar a limpo algumas dessas informações equivocadas que Franchetti colocou-se a campo. Autor de vários estudos sobre a obra do poeta, como “Camilo Pessanha e a China” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 11, Campinas, IEL/Unicamp, 1989), “Camilo Pessanha -- algumas considerações em contributo à sua biografia” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 21, Campinas, IEL/Unicamp, 1993), “Camilo Pessanha e o Liceu de Macau” (In: Voz Lusíada, nº 5, São Paulo, Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes, 1995) e Nostalgia, Exílio e Melancolia -- Leituras de Camilo Pessanha (São Paulo, Edusp, 2001), o crítico atirou-se a uma tarefa nada fácil.

Afinal, ao contrário do poeta Wenceslau de Moraes (1854-1929), que viveu a maior parte de sua vida no Oriente, mais especificamente no Japão, prolífico escritor de cartas, Pessanha não teria sido muito amante da epistolografia, arte que, como se sabe, foi, nos últimos tempos, praticamente, condenada à morte pela revolução digital. Mas se foi um grande epistológrafo, é bem possível que as cartas que escreveu ao longo da vida tenham-se perdido para sempre.

Portanto, aqueles que se dedicaram a levantar traços biográficos de Pessanha acabaram limitados a testemunhos não só confusos e fantasiosos como pouco confiáveis, em razão das muitas inimizades que o poeta disseminou por Macau, até mesmo por força das funções que exerceu como juiz e advogado. Aliado a isso, é de lembrar que a aura de poeta amargurado, que preferira as agruras do desterro voluntário ao Portugal acanhado de seu tempo, era tudo o que o esfumaçado ambiente de décadence do seu tempo valorizava.

III

Um desses mitos contra os quais Franchetti investe é o de que não teria sido um bom conhecedor da língua e da cultura chinesas. Aliás, pode-se até aceitar que Pessanha tenha tido a colaboração do sinólogo José Vicente Jorge ou outro letrado chinês para traduzir/recriar as peças que compõem “As Oito Elegias Chinesas”, que publicou no semanário O Progresso, de Macau, nas edições de 13 e 20 de setembro e 4 e 18 de outubro de 1914. Mas a questão, como argumenta Franchetti, é que aqueles que fizeram tal tipo de avaliação também nunca deram nenhuma prova de que sabiam o que estavam a avaliar. A partir daqui, o autor desfila uma série de argumentos que mostram que a biografia de Pessanha tem sido tecida por uma longa lista de fantasias insustentáveis.

Um desses críticos nada rigorosos, acusa Franchetti, é Francisco de Carvalho e Rego, que, sob o pseudônimo Francisco Penajóia, escreveu uma pretensa biografia do poeta, publicada na revista Renascimento, de Macau, v.4, nº 4, em 1944. Outro é Guilherme de Castilho, que escreveu “Apontamentos dum caderno de viagem -- Camilo Pessanha em Macau”, artigo publicado n´O Comércio do Porto, de 13/4/1954, e “Dois elementos para a ‘pequena história’ de Camilo Pessanha”, que saiu n´O Primeiro de Janeiro, do Porto, de 15/8/1962, textos, aliás, que serviram de base para a parte biográfica do livro Camilo Pessanha, de João Gaspar Simões (Lisboa, Arcádia, 1967).

Além de chamar Pessanha de medroso, mostrando-o como homem displicente com seus trajes, desprovido de pontualidade e senso de obrigação, Penajóia não só colocou em dúvida a sua capacidade oratória como jurista como lhe atribuiu uma personalidade abjeta a quem, ao morrer, “quase abandonado, coberto de chagas”, poucos amigos teriam acompanhado em seu enterro.  Nada disso, porém, é confirmado por outros testemunhos.

Pelo contrário. Franchetti lembra o testemunho do sinólogo José Vicente Jorge, preservado por Danilo Barreiros, seu genro, segundo o qual “o poeta tinha profundo conhecimento teórico da língua chinesa e um apreciável manejo da língua falada”. Argumenta ainda que basta olhar fotos de Camilo Pessanha, num rigoroso figurino de época, para certificar-se de que, pelo menos até 1915, a sua figura externa estava muito mais próxima do dândi “do que do mendigo sujo que alguma tradição tentou fixar”.

Quanto à abulia que se costuma atribuir a Pessanha, o biógrafo admite que o poeta podia alternar momentos de grande atividade e energia com outros de fraqueza e prostração. “Mas não há por que tomar por mais legítimo e definir a personalidade do poeta apenas por um desses momentos”, diz.

IV

Outro mito contra o qual investe é o de que o autor seria um poeta sem escrita, fantasia que começou a ganhar corpo a partir de uma entrevista que a escritora Ana de Castro Osório deu ao Diário de Lisboa,de 21/4/1921, pouco meses depois que sua casa editora, a Edições Lusitânia, havia publicado Clepsidra, único livro de versos de Camilo Pessanha. Nessa entrevista, depois de chamar o poeta de tímido e misantropo, afirmou que ele não escrevia seus versos, guardando-os de memória. A fim de que não se perdessem, disse, resolveu pedir-lhe que ditasse algumas de suas poesias para que as anotasse.

Segundo Franchetti, João de Castro Osório, filho de Ana de Castro Osório, assumindo-se como herdeiro do espólio literário de autor, também procurou mostrar-se como “salvador” da obra, mas o que os documentos mostram é que sua participação foi modesta: um poema anotado a partir do ditado de Pessanha, corrigido depois pelo poeta. Teria também, ao longo dos anos, trabalhado na fixação do texto e da ordem dos poemas no livro.

Mas, diz Franchetti, deixou muito a desejar quanto ao rigor e confiabilidade dos registros de variantes. Felizmente, restaram um caderno de Camilo Pessanha, que foi depositado no Arquivo Histórico de Macau, e a documentação que consta do acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa. É com base nessa documentação que tanto Franchetti quanto Daniel Pires, responsável pelo prefácio e fixação do texto de Clepsidra e outros poemas (Lisboa, Livros Horizonte, 2006), tem desenvolvido seus últimos trabalhos sobre o poeta.

No caderno de Macau, o poeta colou vários recortes de publicações de poemas seus, corrigindo-os. A reprodução em 1984 das páginas desse caderno, observa Franchetti, serviu para colocar um ponto final na imagem pouco crível, mas persistente e amplamente divulgada, de Pessanha como um poeta sem escrita. Mesmo assim, por força da repetição, a imagem continuou a vigorar por mais tempo.

Seja como for, a verdade é que ainda falta um trabalho mais profundo de reconstrução da biografia de Camilo Pessanha, que tanto Franchetti como Pires reúnem todas as condições de levar a efeito. Como diz o próprio título da coleção da IN-CM, este livro procurou trazer à luz apenas o “essencial” sobre a vida e a obra de Camilo Pessanha, tratando de destruir de vez alguns mitos e equívocos que ainda podem levar historiadores literários ou investigadores acadêmicos menos atentos a repetições indevidas. Com certeza, todas essas fantasias levantadas a respeito de um poeta mitificado pela distância pertencem a uma maneira romântica de conceber a vida dos escritores, que hoje já perdeu o sentido.

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O ESSENCIAL SOBRE CAMILO PESSANHA, de Paulo Franchetti. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,112 págs., 5 euros, 2008. Site: incm.pt
E-mail: eubookshop@incm.pt
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27/06/2008
Cinco séculos de poesia brasileira

I

Os professores de Literatura Brasileira tanto do ensino médio como do ensino universitário já não precisam se preocupar tanto para elaborar seus planos de ensino nem consultar uma grande quantidade de livros nem sempre disponíveis nas bibliotecas de escolas ou mesmo de universidades públicas ou privadas. Foi pensando nisso que a Companhia Editora Nacional e a Lazuli Editora decidiram editar uma série de cinco livros sobre a poesia brasileira desde a formação do País até o começo do século XX, entregando a tarefa a uma equipe de jovens críticos e professores já com experiência em sala de aula, todos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).            

O resultado é uma edição que merece toda a confiança do leitor e que permite “pensar a história da poesia no Brasil e suas principais linhas de força, ao longo de cinco séculos”, como assinala na apresentação do primeiro dos cinco volumes Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária na Unicamp, responsável também pela apresentação dos demais livros.            

O primeiro volume da série, Antologia da poesia barroca brasileira, traz poemas de Gregório de Matos (1636-1696), Bento Teixeira (c.1561-1600), Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711) e Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), selecionados por Emerson Tin, doutorando em Literatura Brasileira pela Unicamp, responsável também pelo prefácio, por notas explicativas e de natureza literária, contextual e lexical e por uma pequena notícia biográfica de cada autor que ajudam a tornar cada poema mais legível ao leitor pouco versado na produção barroca luso-brasileira.

Não é preciso dizer que na produção poética do período a primazia é de Gregório de Matos, o que levou o organizador da antologia a selecionar 40 de seus poemas. Seu contemporâneo Botelho de Oliveira aparece com 20 poemas, enquanto Rocha Pita, consagrado autor da História da América portuguesa, tem resgatada a sua um tanto esquecida produção na Academia Brasílica dos Esquecidos. Quem, porém, abre a antologia é Bento Teixeira, conhecido especialmente pelo poema épico “Prosopopéia”, que tem como modelo “Os Lusíadas”, de Luís de Camões (1524?-1580).

II

Com seleção e notas de Pablo Simpson, o segundo volume da série, Antologia da poesia árcade brasileira, dedica os maiores espaços, como não poderia deixar de ser, a Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), mas também contempla parte da produção de Santa Rita Durão (1822?-1784), Domingos Caldas Barbosa (1738-1800), Basílio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto (1744-1793) e Silva Alvarenga (1749-1814).

Reúne o que de melhor produziu a poesia árcade e, de certo modo, ajuda-a a recuperar um lugar que nem sempre lhe foi reconhecido pela crítica, especialmente a da primeira metade do século XX, que viu com prevenção a estilização e o apego de seus poetas a cânones não só portugueses como italianos, esquecendo-se de que, à época, o Brasil não existia como nação organizada e, na verdade, éramos todos portugueses.

Como assinala Paulo Franchetti na apresentação, o Arcadismo, embora não tenha recebido a fortuna crítica e a recepção entusiasmada com que o Barroco tem sido contemplado nos últimos anos, já pode ser visto de modo mais favorável. Além disso, o próprio movimento de constituição de agremiações intelectuais, as famosas academias, diz o professor, “parece mais simpático, quando se considera que o uso dos pseudônimos e a valorização do talento como único requisito para admissão dos membros encenavam, na sociedade estratificada do século XVIII, o ideal de uma aristocracia de espírito e não de sangue”.

Para isso, muito contribuíram os recentes estudos de Jorge Ruedas de la Serna, Vania Pinheiro Chaves, Ivan Teixeira, Alcir Pécora, Melânia Silva de Aguiar, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Joaci Pereira Furtado, José Ramos Tinhorão, Luís André Nepomuceno e, se permitem a pouca modéstia, a biografia de Tomás Antônio Gonzaga que este articulista escreveu.

III

Antologia da poesia romântica brasileira, com seleção e notas de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, é um volume mais encorpado, em razão mesmo da necessidade de abranger maior número de autores. O período, a rigor, vai de 1836, quando o poeta Gonçalves de Magalhães (1811-1882) publicou um ensaio na revista Niterói, editada em Paris, lançando as idéias de um programa para a edificação de uma literatura genuinamente brasileira, sob a influência da natureza americana, até meados da segunda metade do século XIX. E configura a presença do Romantismo em terras brasileiras.

Além do citado Gonçalves de Magalhães, o volume abrange autores díspares como Sousândrade (1832-1902), autor de “O Guesa Errante“, poema redescoberto pelos concretistas Augusto e Haroldo de Campos (1929-2003) a partir da década de 60 do século passado, e Gonçalves Dias (1823-1864), autor da antológica “Canção do exílio” e de alguns dos mais importantes poemas da lírica indianista brasileira.

Reúne ainda Luís Gama (1830-1882), com suas sátiras aos comportamentos, tipos e situações de sua época, Bernardo Guimarães (1825-1884), com sua poesia erótica e, às vezes, até pornográfica, Álvares de Azevedo (1831-1952), com sua fina e sepulcral poesia, Laurindo Rabelo (1826-1864), com sua poesia satírica e fescenina, Casimiro de Abreu (1839-1860), com sua lírica de tons suaves, Castro Alves (1847-1871), com seus versos grandiloqüentes em favor dos escravos, Fagundes Varela (1841-1875), com seus poemas religiosos uns, amorosos outros, de inspiração regional ou sertaneja,  Juvenal Galeno (1836-1931), com seus versos francamente populares, e Junqueira Freire (1832-1855), com seus poemas de monge atormentado. 

IV

Com seleção e notas de Pedro Marques, Antologia da poesia parnasiana brasileira apresenta poemas de 14 poetas, entre consagrados e outros menos conhecidos do grande público, mas não menos representativos do parnasianismo. Entre os consagrados, estão Olavo Bilac (1865-1918) e Machado de Assis (1839-1908), cuja produção como poeta acabou abafada pelo êxito de seus romances da última fase. Entre os menos afamados, estão Luís Delfino (1834-1910), B.Lopes (1859-1916) e Francisca Júlia (1870-1920), única mulher entre os poetas reunidos.

Lembra Franchetti na apresentação que o parnasianismo, em seu grande momento, ocupou lugar proeminente em jornais, revistas, conferências públicas e saraus burgueses, atraindo grande público para a poesia, o que, aliás, nunca haveria de se repetir, guardadas as devidas proporções no tempo. É de ressaltar ainda que, desde os primeiros tempos do Brasil independente, a literatura esteve comprometida com as questões vitais da nação, tendo assumido a bandeira da causa abolicionista.

Encerrada a questão da abolição da escravatura -- embora a situação dos ex-escravos nunca tenha efetivamente preocupado o governo e as classes dirigentes --, e estabelecida a República, desapareceram os grandes temas épicos. Assim, a poesia refluiu a um exclusivo cultivo artístico, calcado em movimentos europeus posteriores ao Romantismo.

Embora fique clara a influência do movimento francês, os parnasianos brasileiros procuraram um caminho próprio, o que explica o fato de terem caído no gosto da população ou pelo menos daquele público letrado que se interessava pelas coisas do espírito. Com certeza, tal foi a importância do lugar que essa geração ocupou na sociedade de seu tempo que a ela se deve a criação da Academia Brasileira de Letras, como lembra Pedro Marques na sua introdução.

Se muitas vezes os modernistas atacaram sem medidas o parnasianismo, isso se deu por conta da necessidade que tinham de oferecer alternativas para o que consideravam fórmulas gastas dos parnasianos. Mas nunca deixaram de reconhecer a importância histórica do movimento.

V

Com seleção e notas da professora Francine Ricieri, doutora em Teoria e História Literária na área de Literatura Brasileira pela Unicamp, Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira reúne nove poetas de um movimento que, ao não alcançar a repercussão do parnasianismo, agrupa nomes ainda pouco conhecidos do público. Diz a organizadora em aprofundado estudo introdutório à guisa de prefácio que esses poetas, como jamais pretenderam servir à causa nacional, “foram usualmente representados como alienados, desenraizados, fúteis, irracionalistas, incompreensíveis, colonizados”.

Seja como for, como observa Franchetti na apresentação, a poesia simbolista reserva muitas surpresas “e a leitura desta antologia por certo ajudará a reverter a idéia de desinteresse que se colou à produção simbolista”. Para que esta frase não fique aqui assim um tanto solta, é de lembrar que Franchetti, autor de As aves que aqui gorjeiam -- a poesia do Romantismo ao Simbolismo (Lisboa, Cotovia, 2005), navega por estas águas com mão de mestre, como diria Massaud Moisés.

Missal e Broquéis, publicados no Rio de Janeiro em 1893, por Cruz e Sousa (1861-1898), teriam sido a primeira manifestação em livro no Brasil do Simbolismo ou Decadentismo. Por isso, além de peças de Cruz e Sousa, que abrem o volume, a organizadora recolheu poemas de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), B.Lopes (1859-1916), Eduardo Guimaraens (1892-1928), Maranhão Sobrinho (1879-1915), Pedro Kilkerry (1885-1917), Da Costa e Silva (1885-1950), Emiliano Perneta (1866-1921) e Alceu Wamosy (1895-1923). É de notar que B.Lopes aparece aqui também porque sua poesia tanto tem traços parnasianos como simbolistas.

Desses, o mais visível nos dias de hoje é Da Costa e Silva, em razão do trabalho de resgate de sua poesia encetado por seu filho, o poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, que tratou de republicar a produção do pai, embora Alphonsus de Guimaraens e Emiliano Perneta também sejam frequëntemente lembrados em estudos acadêmicos.

Outro bem conhecido seria Augusto dos Anjos (1884-1914), cuja poesia apresenta recursos e temas relacionados à poesia simbolista, mas a organizadora preferiu deixá-lo de fora da antologia, argumentando que incluí-lo seria fornecer do poeta “uma visão que não condiz com a linha peculiar e tão característica em que sua poesia se definiu”. Até porque a produção de Augusto dos Anjos guarda igualmente traços parnasianos e até mesmo pré-modernistas.

Por isso, seria aceitável que alguns especialistas viessem a questionar a sua exclusão, mas a verdade é que o estudo introdutório de Francine Ricieri é tão bem embasado e didático e suas extensas notas de leitura tão esclarecedoras que essa se torna uma tarefa extremamente difícil e ingrata.
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ANTOLOGIA DA POESIA BARROCA BRASILEIRA, 157 págs., 2007, R$ 18; ANTOLOGIA DA POESIA ÁRCADE BRASILEIRA, 126 págs., 2007, R$ 18; ANTOLOGIA DA POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA, 286 págs., 2007, R$ 22; ANTOLOGIA DA POESIA PARNASIANA BRASILEIRA, 227 págs., 2007, R$ 22; ANTOLOGIA DA POESIA SIMBOLISTA E DECADENTE BRASILEIRA, 223 págs., 2008, R$ 22. Apresentação de Paulo Franchetti. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Lazuli Editora. Site: www.editoranacional.com.br
E-mail: editoras@ibep-nacional.com.br

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25/06/2008
O melhor de Fernando Pessoa em prosa

I

Lançado em 1988, O banqueiro anarquista e outras prosas, de Fernando Pessoa (1888-1935), com seleção e ensaio introdutório de Massaud Moisés (1928), que ganhou em 2007 uma segunda edição revista, é, sem dúvida, o melhor caminho para quem, já conhecendo a poesia pessoana, quer se iniciar em sua obra em prosa. O livro constitui uma antologia do que de melhor o pensamento pessoano produziu tanto na área de estética como de filosofia e política.

Em razão da profundidade da obra e da diversidade de assuntos e setores do conhecimento alcançados pela curiosidade intelectual do poeta, o livro foi dividido em cinco partes: ficção, estética, filosofia, política e cartas de amor. Da primeira parte, consta o texto integral do conto que dá título ao livro e do poema dramático “O marinheiro”, além de excertos do Livro do Desassossego, do semi-heterônimo Bernardo Soares.
Único conto que Pessoa conseguiu dar por acabado, já que as demais tentativas resumiram-se a fragmentos, “O banqueiro anarquista” foi também o único que o autor conseguiu publicar em vida, no número de estréia da revista Contemporânea, publicação de vanguarda que veio à luz em Lisboa em maio de 1922 e durou até 1926, dirigida por José Pacheco, escandalizando a mentalidade provinciana de então com o arrojado modernismo gráfico e literário preconizado pela revolução estética dos anos futuristas da geração da revista Orfeu, que teve só dois números em 1915,
É de imaginar, portanto, que Pessoa só chegou a concluir esse conto em razão da necessidade de mandá-lo para a publicação iminente -- e fez tudo em janeiro daquele ano, tanto a versão original em manuscrito como a versão definitiva datilografada. Tudo isso faz ressaltar a importância que a perspectiva de publicação iminente tem na obra dos autores, pois não são (e não foram) poucos os que, imaginando dificuldades futuras para a publicação, acabam por deixar suas possíveis obras num metafórico tinteiro de boas idéias.

O conto “O banqueiro anarquista”, nunca é demais lembrar, consiste num diálogo entre o narrador e o dono de um banco, “grande comerciante e açambarcador notável”, que se afirma anarquista. Trata-se, logo se vê, de um jogo de palavras, um oxímoro, pois impossível imaginar um banqueiro que não só seja adepto do anarquismo como ainda insista em tentar provar que suas ações são movidas por ideais libertários.
Aparente exercício de inteligência, diz Massaud Moisés, o conto encerra um dos textos mais graves e demolidores do autor, além de ser uma espécie de auto-retrato involuntário. “Se a liberdade de pensar e de sentir, e sentir tudo de todas as maneiras, era o seu lema, em O banqueiro anarquista o lema concretiza-se num de seus momentos privilegiados: com a derrubada (ou o questionamento) das idéias feitas, dos conceitos estratificados ou dubiamente lógicos, ou da engrenagem viciada que os produz, Pessoa examina até a exaustão o direito e o dever de (re)pensar questões intrincadas e mergulhar no paradoxo”, diz o ensaísta.

II

Massaud Moisés, em seu estudo introdutório, diz que mais do que à prosa de ficção, Pessoa dedicou-se às idéias estéticas, pois, além de criar poesia, teatro e conto, pensou longamente não só num projeto político para Portugal como em temas ligados às artes e à literatura de modo específico. Alguns desses temas, que se encontram espalhados por artigos em jornais, notas para estudos nunca concluídos ou em cartas para amigos, Moisés reuniu neste volume, recorrendo às melhores edições da prosa pessoana.
Um desses textos discute o Sensacionismo, movimento que Pessoa imaginou a uma época em que pululavam os “ismos”, especialmente o Futurismo. Não que Pessoa imaginasse que o Sensacionismo pudesse suplantar todos os demais movimentos criados até então, mas que apenas procurava aglutinar todos num só, pois todo processo criador parte sempre das sensações humanas. Afinal, dizia, “a base de toda a arte é a sensação”.

Nesse texto, enveredava-se também pelas artes da política, pois via em tudo o que o cercava -- e não só em Lisboa ou Portugal, mas na Europa e no mundo -- um ambiente de franca decadência, tanto a nível moral como social, semelhante ao que levara à derrocada do Império Romano. Costumava ver os homens públicos de seu tempo com pesar, insignificantes que se mostravam para o momento que o país vivia, ao mesmo tempo em que idealizava aqueles que fizeram a história de Portugal, especialmente os do Quatrocentos e do Quinhentos, a tal ponto que ainda iria escrever o poema “Mensagem”, extremamente nacionalista.
Para o poeta, a decadência portuguesa começara com a infeliz jornada de Alcácer Quibir em 1580 “e até hoje ainda não passou”, ainda que tenha tido lampejos transitórios, como a Restauração, o marquês de Pombal e o presidente Sidônio Pais, que seriam “remissões da nossa doença coletiva”.

III

Fechando o volume, duas cartas de amor a Ofélia Queiroz que se mantiveram durante longo tempo em estrito ineditismo. Numa delas, de 1920, já famosa, diz que não pretende casar com Ofélia porque o seu destino pertence a outra Lei, “de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinada cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam”, o que levou críticos a supor que essa era a época em que se dedicava ao ocultismo e vivia perturbado psiquicamente, com rasgos de alucinação e de dispersão.

Na outra, de 1929, vê-se a seriedade com que Pessoa tinha a sua obra, o que, de certa maneira, deixa antever que, de alguma maneira, intuía o lugar que a posteridade reservava para a sua obra. Mas, ao mesmo tempo, mostra o quanto vivia abandonado a si mesmo, a uma vida intelectual e mística, ao seu isolamento, que, de fato, marcou toda a sua existência.

IV

Professor titular aposentado da Universidade de São Paulo, Massaud Moisés foi professor visitante nas universidades de Wisconsin, Indiana, Vanderbilt, Texas, Califórnia e Santiago de Compostela. Vários de seus livros dedicados à Teoria Literária constituem referência obrigatória para estudantes e estudiosos de Literaturas Portuguesa e Brasileira e têm obtido edições sucessivas, que o tornam um autor erudito de best sellers, muito diferente de autores que igualmente vendem muito, mas que não merecem ter sequer o nome citado num espaço de respeito como este. Basta ver que em A Literatura Portuguesa Através dos Textos, de 1968, obteve a sua 28ª edição em 2001, o Dicionário de Termos Literários, de 1974, ganhou a sua 12ª edição revista e ampliada em 2004 e A Criação Literária, de 1967, chegou à 19ª edição em 2005, entre outros.

O BANQUEIRO ANARQUISTA E OUTRAS PROSAS, de Fernando Pessoa. Seleção e ensaio introdutório de Massaud Moisés. São Paulo: Cultrix, 232 págs., 2008.         

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18/06/2008
Um romance (?) da cidade-monstro

Lançado em 2001, Eles eram muitos cavalos (3ª ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005), de Luiz Ruffato, é, hoje, unanimidade na crítica. Contemplado com os prêmios Machado de Assis de Narrativa da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), ambos de 2001, tem sido não só elogiado em recensões em jornais e revistas como suscitado estudos nos meios acadêmicos, inclusive fora do Brasil. Apontado em 2005 como a quarta obra mais importante da recente ficção brasileira, já foi lançado na Itália, França e Portugal, além de ter recebido uma adaptação para o teatro pela Companhia do Feijão, que também recebeu prêmios por essa encenação.

Exemplo desse reconhecimento é o livro Uma cidade em camadas: ensaios sobre o romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, que reúne 15 ensaios de estudiosos do Brasil e do exterior, todos escritos a partir do livro mais conhecido do escritor para pensar uma “obra em processo“, como o define Regina Dalcastagné, professora de Universidade de Brasília, na apresentação que escreveu para a publicação. Organizado nos Estados Unidos pela professora Marguerite Itamar Harrison, doutora em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Brown University e professora assistente no Smith College, em Northampton, Massachusetts, o volume constitui uma homenagem coletiva ao livro de Ruffato.

Como bem observa Marguerite Harrison na introdução, a cidade do título deste livro de ensaios corresponde à cidade de São Paulo, uma das cinco maiores do mundo, embora em algumas listas já apareça em terceiro, o que, convenhamos, não é mérito nenhum. É um livro que “dialoga com outras cidades celebradas por escritores modernistas como Cesário Verde (1855-1886), Baudelaire (1821-1867) e Oswald de Andrade (1890-1954), entre outros, ao mesmo tempo em que compartilha espaço com outras cidades em foco na literatura urbana atual”, diz a professora.

Enfim, uma megalópe caótica, uma cidade ilimitada, cidade-monstro, cidade contaminada, tal como foi definida por Marguerite Harrison, e, ao mesmo tempo, única no mundo, tal a sua feiúra, sua desumanidade, a desorganização de seu trânsito, a poluição massacrante de seus ares, as águas sujas de seus rios mortos, a violência desmedida que campeia em suas ruas, a miséria de suas favelas que se propagam com a rapidez da Aids nos anos 80, ao lado de grandes blocos de concreto, os “galinheiros de ricos”, com seus portões automáticos, grades e seus guardas privados e armados até os dentes.

II

Os ensaios enfocam o trabalho de Ruffato sob diversos ângulos, desde a sua filiação ao Modernismo da década de 1920, especialmente aproximando-o não só da experimentação da linguagem de Oswald de Andrade, guardados os devidos distanciamentos de época, passando por comparações ligeiras com a Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade (1893-1945). Vera Lúcia de Oliveira, professora da Universidade de Salento, Itália, por exemplo, filia o ritmo vertiginoso do texto de Ruffato a livros de autores modernistas dos primeiros decênios do século XX: Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Pau Brasil (1925), de Oswald de Andrade, Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), de Alcântara Machado (1901-1935) e até mesmo Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, considerados pontas-de-lança da vanguarda brasileira.

Há ainda análises sobre a posição do narrador, a pluralidade de vozes, que remete à teoria do romance polifônico do linguista russo Mikhail Bakhtin (1896-1975), a temática da degradação urbana, a cidade-personagem e cidade-mítica, como a Dublin de James Joyce (1882-1941), a Santa Maria de Juan Carlos Onetti (1909-1994), a Macondo de Gabriel García Márquez (1928) e o condado de Yokapatawpha de William Faulkner (1887-1962).  

O título, Uma cidade em camadas, vem de uma definição do próprio autor, que chamou Eles eram muitos cavalos de um romance-cebola, ou seja, um romance que revela diversas camadas da metrópole paulistana. “A cidade representada no romance de Ruffato é uma cidade ilimitada, caótica, uma cidade contaminada, logo cidade-monstro, uma cidade em ruínas, sem cidadania”, define Marguerite Harrison.

A professora Lúcia Sá, da Universidade de Manchester, Inglaterra, prefere ressaltar a ausência de descrição de massas no livro de Ruffato, lembrando que a idéia da enormidade da cidade é dada pela multiplicação de histórias individuais. E repete o que Fanny Abramovich já havia apontado na orelha do livro, dizendo que Eles eram muitos cavalos é de um gênero difícil de definir: “Não sei se li um romance, se contos, registros ou espantos… Sei que me joguei voraz pelos setenta flashs, takes, zoons, avançando sobre a sufocante paulicéia”.

Lúcia Sá destaca ainda que, praticamente, não há proletários na São Paulo de Ruffato e o leitor jamais tem a sensação de que os trabalhadores são uma massa de seres idênticos uns aos outros, peças de uma engrenagem. E reconhece que o livro, isso sim, é marcado pelo espectro do desemprego. “Longe de ser descrito como uma situação de exceção, o desemprego aparece no livro como um estado de quase normalidade, enquanto o sonho de conseguir um bom emprego adquire, inversamente, ares de quimera irrealizável”.
          

III

Já a professora Leila Lehnen, da Universidade do Novo México, EUA, destaca que a literatura de Ruffato problematiza a questão na medida em que “o seu foco são menos as cidades -- as grandes ou pequenas -- e muito mais o fracasso de um projeto de modernização de uma concepção de progresso que passa pelas agruras da urbanização, tomada em todas as suas variáveis semânticas”. Em outras palavras: o livro “narra a implosão da polis enquanto espaço de atuação do contrato social”, diz.

Giovanni Ricciardi, professor de Literaturas Portuguesa e Brasileira da Universidade dos Estudos de Nápoles-L´Orientale, Itália, ressalta a dificuldade que os críticos têm para enquadrar a obra de Ruffato nos moldes já consagrados, a partir de um título um tanto esquisito, cuja origem está em versos de Cecília Meireles (1901-1964) no poema O romanceiro da Inconfidência, que o autor lembra em epígrafe: Eles eram muitos cavalos / mas ninguém mais sabe os seus nomes / sua pelagem, sua origem… E que servem para que o autor faça um paralelo com a gente simples que compõe suas histórias, gente da qual ninguém sabe o nome, a pelagem, a origem, gente que vive e se perde e morre na cidade-monstro sem deixar rastro.

Também Hélder Macedo, poeta, romancista e ensaísta português, professor catedrático jubilado da Universidade de Londres e do King´s College, onde foi titular da Cátedra Camões de 1982 a 2004, diz que Eles eram muitos cavalos “nem mesmo é pós-modernista no sentido em que a crítica, sempre desejosa de colocar rótulos, gosta de dizer que é tudo que modernamente se escreve e não se consegue rotular de outra maneira. Mas é um livro que só depois do Modernismo teria podido ser escrito”.  

Para Nelson H. Vieira, professor de Estudos Luso-Brasileiros da Brown University, EUA, o texto de Ruffato “é uma das primeiras obras da literatura contemporânea a dar voz a uma massa heterogênea de gente marginalizada pelo sistema espacial, político, econômico, social e cultural”, ao expor o leitor a múltiplas experiências durante um só dia na vida cotidiana na cidade imensa de São Paulo, “sobretudo,  a cenas nítidas da vida do anônimo trabalhador urbano, do homem simples, da mulher gasta, do favelado etc., que normalmente não são percebidos pelo observador alheio a esta existência e certamente não imaginados pelos planejadores em poder que inicialmente conceberam o abstrato espaço urbano”.

IV

De 2007, é também De mim já nem se lembra, romance epistolar de Luiz Ruffato, que vem acompanhado por uma separata com propostas de atividades para os professores de Letras em sala de aula elaboradoras pelas professoras Tânia Centurión e Mirella L.Cleto. Ambas lembram que a publicação de cartas como estratégia narrativa foi amplamente empregada nos séculos XVIII e XVIII. Em 1721, Montesquieu (1689-1755) publicou As cartas persas, que muito sucesso fez entre os nossos autores árcades. De 1761 é A nova Heloísa, de Rousseau (1712-1778), um best seller da época, composto basicamente da correspondência de cinco personagens.

Outro romance epistolar famoso foi escrito por Choderlos de Laclos (1741-1803), As ligações perigosas, de 1782, que reúne a correspondência trocada por um grupo de aristocratas que, por meio de intrigas e jogos de sedução, dedicam-se a destruir reputações alheias. Além desses, destacam-se Cartas portuguesas, atribuídas a Mariana Alcoforado (1640-1723), de 1669, Pamela e Clarice Harlowe, de Richardson (1689-1761), de 1740 e 1748, e Werther, de Goethe (1749-1832), de 1774.

Seguindo essa linha tradicional, Ruffato constrói um romance que começa quando o narrador, ao abrir uma caixa onde a “mãe abrigara seu coração esfrangalhado”, depara-se com um maço de cartas enfeixadas por um barbante. Escritas pelo irmão, vítima de um acidente, e dirigidas apenas à mãe, essas 50 cartas reúnem um passado, convidando o leitor a espreitar a memória de uma família com “olhos derramando saudades”, observa Heloísa Prieto no posfácio.

Compostas com a doçura da fala suave da gente de Minas Gerais, como diz Heloísa Prieto, as cartas tecem comentários sobre a dura vida na metrópole para aqueles que ficaram no interior do Brasil, ao mesmo tempo em que recompõem aspectos da vida brasileira, como os tempos difíceis vividos sob a ditadura militar (1964-1985), entremeados pela euforia coletiva proporcionada pelas vitórias internacionais do futebol brasileiro.

São escritas por um jovem de 26 anos que, na Grande São Paulo, a cidade-monstro, vai parar em Diadema, na região do ABCD (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema), pólo industrial e berço do moderno sindicalismo brasileiro – moderno, aliás, só no sentido de contemporâneo porque continua marcado pela ação de carreiristas e oportunistas -- a uma época em que operários e sindicalistas mobilizavam-se para reivindicar o que um poder espúrio e ditatorial lhes havia arrancado.

Numa das cartas à mãe, o narrador lembra que “a gente vive debaixo de uma ditadura que prende e mata trabalhadores, que a única coisa que querem é mudar a situação injusta do país, mas a senhora nem fale isso aí em Cataguases não senão eles ainda prendem a senhora e dizem que a senhora é comunista”.

Pela leitura daquelas cartas escritas entre 1971 e 1978, percebe-se o drama comum de toda família brasileira de origem humilde, a luta pela inserção na sociedade burguesa, a conquista de um salário melhor que possibilite a compra de um imóvel pequeno, mas suficiente para fugir da asfixia do aluguel, um lugar melhor para viver e, finalmente, a compra de um automóvel, símbolo de status e da sonhada ascensão social. No livro, porém, o veículo é também símbolo da destruição, já que o autor das cartas morre num acidente automobilístico, abatido pela fatalidade, quando se dirigia à noite a Cataguases exatamente para mostrar à família um “fuscão 72, motor de 1500 cilindradas, amarelo colônia, muito bem conservado, uma tetéia, comprado na bacia das almas”.

V

Nascido em Cataguases (Minas Gerais), em 1961, filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira, Luiz Ruffato é formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Para sobreviver, exerceu várias atividades profissionais: já foi, nesta ordem, vendedor ambulante de pipocas como o pai, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista, sócio de uma empresa de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor autônomo de livros e, novamente, jornalista, profissão que exerceu até 2003 em São Paulo, onde mora desde 1990. Desde então, procura se afirmar como escritor profissional.

           

Publicou dois livros de contos, Histórias de remorsos e rancores, de 1998, e (os sobreviventes), de 2000, ambos pela Boitempo Editorial, de São Paulo.  É ainda autor do projeto Inferno provisório, composto por cinco volumes, dos quais três já publicados: Mama, son tanto feliceO mundo inimigo, de 2005, e Vista parcial da noite, de 2006.  Eles eram muitos cavalos está publicado também na Itália (Milano, Bevino Editore, 2003), na França (Paris, Métailié, 2005) e em Portugal (Espinho, Quadrante, 2006).

           

UMA CIDADE EM CAMADAS: ENSAIOS SOBRE O ROMANCE ELES ERAM MUITOS CAVALOS, DE LUIZ RUFFATO, de Marguerite Itamar Harrison (org). Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2007, 192 págs., R$ 37. E-mail: editora@editorahorizonte.com.br
Site: www.editorahorizonte.com.br

DE MIM JÁ NEM SE LEMBRA, de Luiz Ruffato. São Paulo: Editora Moderna, 2007, 104 págs., Site: www.moderna.com.br          

 

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18/06/2008
Três poetas e uma nova editora

I
               
Autor de A espera do nunca mais - uma saga amazônica, romance de 877 páginas (Belém, Editora Cejup, 1999), que ganhou em 2000 o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos da União Brasileira de Escritores, e A noite é dos pássaros (Belém, Editora Cejup, 2003), o romancista Nicodemos Sena (1958) nasceu em Belém e passou parte de sua infância entre os índios maués, na região de fronteira entre os Estados do Pará e Amazonas. Em 1977, veio para São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica e em Direito pela Universidade de São Paulo.

Há algum tempo radicado em Caraguatatuba, pequena cidade do Litoral Norte paulista, está agora empenhado em colocar em funcionamento uma casa editora fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, a Associação Cultural LetraSelvagem, tarefa, aliás, nada fácil. Para marcar o início do recém-criado selo editorial LetraSelvagem, acaba de lançar três livros de poesia: Anima animalis: voz de bichos brasileiros, de Olga Savary, com gravuras de Marcelo Frazão; O homem deserto sob o Sol, de Edivaldo de Jesus Teixeira; e Tratado dos anjos afogados, de Marcelo Ariel.
 
II
               
Também nascida em Belém, mas radicada no Rio de Janeiro há décadas, Olga Savary (1933), ficcionista, ensaísta, antologista, tradutora e jornalista, já ganhou 40 prêmios nacionais de literatura. Traduziu mais de 50 títulos de escritores como Jorge Luís Borges (1899-1986), Octavio Paz (1914-1998), Pablo Neruda (1904-1973), Federico García Lorca (1898-1936), Mario Vargas Llosa (1936) e outros. Com sua poesia traduzida para América Latina, Europa, Estados Unidos, China e Japão, dá palestras em congressos e universidades do Brasil e do exterior. Fundadora do lendário semanário O Pasquim, do Rio de Janeiro, em 1969, recebeu o Prêmio Internacional Brasil-América Hispânica de 2007 pelo livro Berço esplêndido e o Prêmio Josué Montello da Academia Brasileira de Letras por um romance ainda inédito.

Anima animalis é o seu 19º livro de poesia, ao qual acrescentou o subtítulo Voz de bichos brasileiros. O livro, que inclui nove hai-kais e um poema longo, com versões em espanhol, finlandês, francês, inglês e italiano, nasceu de uma idéia que teve em 1996, quando o gravador Marcelo Frazão (1964) a convidou para traduzir em texto imagens de animais que ele havia produzido usando as técnicas da gravura em xilo e metal. Como eram animais europeus, a poeta logo imaginou que a vasta fauna brasileira poderia oferecer maiores e mais exóticas opções, como o tamanduá, o beija-flor e o lobo-guará (do hai-kai abaixo):
                

Do meu alvo espero
De longe nem chego perto
Desconfiado e alerta.                 

Daí nasceu este livro em que suas peças poéticas, como seria de se esperar de Olga Savary, “dizem, na medida justa da metáfora lapidada pela concisão, que entre palavra, imagem e leitura há um templo onde se ancorar o pensamento em busca dos sentidos sempre abertos, desde que haja o velho e conhecido desejo de ir além das clausuras do espaço e do tempo”, como observa no prefácio Christina Ramalho, doutora em Semiologia pela Universidade do Rio de Janeiro e professora de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
           

Se mais fosse preciso acrescentar, seria para dizer que Olga Savary é uma poeta consagrada e amadurecida, que já não necessita de maiores apresentações. Nicodemos Sena não poderia ter escolhido melhor um autor para abrir a coleção Sentimento do Mundo de sua nova editora, à qual, em 2009, deverão ser acrescentados Pablo Neruda e Matsuo Bashô (1640-1694). Para 2009, a LetraSelvagem anuncia também o início de uma coleção de prosa de ficção (novelas e romances), além de uma coleção de ensaios, que deverá ser inaugurada por Octavio Paz.
                                                                             

III

Juiz federal do Trabalho radicado em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, Edivaldo de Jesus Teixeira (1957) nasceu em Centenário do Sul, no Paraná. Formado em Direito, exerceu a profissão de advogado durante vários anos, antes de fazer concurso para a magistratura. Autor de três livros de poemas (dois em edição de autor), diz que a sua poesia vem antes do Direito, explicando que sua obra é escrita sob uma ótica existencial. O autor já dispõe de outro livro praticamente pronto: A inesperada música subterrânea, que ainda não tem previsão de lançamento.

O homem deserto sob o Sol, segundo Teixeira, mostra suas reflexões sobre o homem e o mundo e muitas de suas influências literárias, como Gabriel García Márquez (1928) e Jorge Luís Borges:
           

(…) Miseráveis!
Deles não serão os meteoros
nem a luz do outono.
De ti não passarão os ventos de Macondo.
Como suportas a dor
e todos os seres vivos suportam a dor
estás plena de quietude e gelo.
Nas pedras. Nas galáxias.
Em Getsêmani!

(….) Vislumbro-o -- paralelo tempo-espaço? --
em águas não idênticas
que em vão navego
afiando rudes facas,
e como Borges, cego,
reelaboro o sonho
até o labirinto,
onde a solidão é absoluta
e o tempo extinto. (…)
             

IV

Nascido em Santos, Marcelo Ariel (1968) mora em Cubatão, terra do romancista Afonso Schmidt (1890-1964), que lá nasceu e viveu antes de a área ter sido transformada em pólo industrial. A Cubatão que conhece, portanto, pouco tem da idílica Cubatão de Schmidt, mas os seus versos procuram denunciar o avanço descontrolado da insânia fabril que atraiu desesperados de todos os quadrantes do Brasil, especialmente nordestinos, a partir da construção da Via Anchieta no começo da década de 40 e da implementação da indústria siderúrgica nas décadas de 50 e 60.

Ariel está em seu segundo livro, mas, a rigor, Tratado dos anjos afogados é o primeiro que sai por uma editora estabelecida e começa a ganhar espaço na mídia porque o de estréia foi um livro artesanal, distribuído entre amigos. Como para o segundo livro juntou material do primeiro e peças mais recentes, pode-se dizer que ambos mostram exatamente o confronto entre o mundo poético e o mundo real, ou seja, a natureza da Serra do Mar, do outro lado do Rio Cubatão, e as fábricas e suas chaminés que rasgam os céus atirando ao ar fuligem e chamas.
           

Tanto que o título do livro é uma referência ao Rio Cubatão, que antes era puro -- pelo menos ao tempo em que os jesuítas e, depois a Coroa portuguesa mantinham ali uma fazenda e um pedágio para as cargas que desciam e subiam a Serra ao lombo de burros, bestas, índios e africanos -- e, hoje, está morto e infestado por mercúrio, pó da China e outras substâncias cancerígenas, apesar da retórica oficial que prega que Cubatão deixou de ser o Vale da Morte da década de 80. Não é à toa que um dos poemas do livro é dedicado “ao menino que nasceu sem cérebro e o menino que nasceu sem braços e as pernas em Cubatão”.
               

A exemplo de Paulo Lins (1958), autor do romance Cidade de Deus (São Paulo: Companhia das Letras, 1997), oriundo de espaços periféricos e conflagrados em que o poder do Estado há muito foi substituído pelo poder de facções armadas pelo dinheiro do tráfico de drogas, Marcelo Ariel vem de uma “perigosa” linhagem de escritores, como diz o seu editor, o escritor Nicodemos Sena, relacionando os nomes de Jean Genet (1910-1986), Louis-Ferdinand Cèline (1894-1961), Tennesse Williams (1911-1983), Máximo Gorki (1868-1936), Lima Barreto (1881-1922) e Plínio Marcos (1935-1999).
           

Ou seja: Ariel faz parte da família daqueles que fazem literatura daquilo que de pior a sociedade humana produz. É por isso que muitos de seus poemas são dedicados a chacinas -- a morte de jovens que, sem acesso à educação formal ou, apesar dela, atiram-se pelos caminhos do crime e acabam assassinados por bandidos ou policiais a soldo de comerciantes, traficantes ou políticos -- ou a presídios, reproduções pioradas do inferno imaginado por Dante Alighieri (1265-1321). Um exemplo dessa vida que corre nos porões da sociedade e que quase nunca submerge à flor da literatura é este poema, “Jardim Costa e Silva-Cubatão”, em homenagem a um bairro degradado daquela cidade:
                                  

(…) Para comemorar
o delegado
oferece um copo de conhaque
para o avião da morte
e olha para mim
pensando em nada,
Draculino é preso
ainda dando as cartas,
antes de ir dormir
(Jogando buraco)
continuem esse jogo,
ele diz…
(Depois no pau de arara reza:
Porra, não fui eu que matei o Sol, foram os homens.)
Draculino é solto
passa na rua e reza de novo para o ar:
É a maior injustiça… o Sol morto e
os homens vivos.

Não se imagine, porém, que Ariel seja um poeta intuitivo. Leitor contumaz, é dono de um sebo itinerante, atividade de que sempre tirou o sustento e que lhe permitiu conhecer uma série de poetas e romancistas que acabaram por influenciar o seu trabalho poético que já vai para mais de duas décadas. Por isso, outro aspecto marcante de sua poética, como assinala o poeta Ademir Demarchi (1960) na apresentação que escreveu para este livro, “é o de uma escritura de cunho filosófico, metafísica, que questiona o tempo todo a essencialidade e a condição humana, que pode se dar por diálogos entre escritores e filósofos, fragmentos dramáticos, ou em poemas que remetem a livros, autores, filmes”. Uma dessas interlocutoras é a poetisa, cronista e tradutora portuguesa Adília Lopes (1960), a quem o poeta no livro escreve duas cartas-poemas.

ANIMA ANIMALIS VOZ DE BICHOS BRASILEIROS, de Olga Savary (poesia) e Marcelo Frazão (gravura). Caraguatatuba-SP: LetraSelvagem, 151 págs., 2008.
O HOMEM DESERTO SOB O SOL, de Edivaldo de Jesus Teixeira. Caraguatatuba-SP: LetraSelvagem, 104 págs., 2008.
TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS, de Marcelo Ariel. Caraguatatuba-SP: LetraSelvagem, 216 págs., 2008. E-mail: letraselvagem@uol.com.br
Site: www.letraselvagem.com.br

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12/06/2008
Saga da imigração japonesa

I                          

Há um século, mais exatamente no dia 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru ancorou em frente ao armazém 14 do Porto de Santos, depois de 52 dias de viagem, trazendo a bordo 781 japoneses que compunham 165 famílias. Eram camponeses, carpinteiros, pequenos comerciantes e donos de fabriquetas à beira da falência que haviam deixado a cidade de Kobe a 28 de abril, dispostos a fugir da miséria em que viviam em seu país, imaginando reconstruir a vida com o trabalho na lavoura.

Para marcar esses cem anos de intercâmbio -- que nem sempre foi mantido dentro dos limites do respeito aos direitos humanos, tanto lá como cá --, as autoridades dos dois países programaram uma série de festividades que inclui a visita ao Brasil do príncipe Nahurito, da família real japonesa, a São Paulo e Santos.

Dentro desse espírito de confraternização, acaba de sair o livro Sôbô -- Uma Saga da Imigração Japonesa, de Tatsuzô Ishikawa (1905-1985), que conta uma parte significativa dessa história de um século que, nos últimos anos, teve a sua contrapartida com a aventura dos dekasseguis no Japão: hoje, cerca de 30 mil brasileiros descendentes de japoneses, para fugir de uma situação difícil, optaram por trabalhar no Japão em serviços que, normalmente, os japoneses já não querem fazer.

Vivendo em alojamentos e em condições precárias, muitos conseguiram amealhar um pé-de-meia e voltar para o Brasil, onde procuraram abrir um negócio, mas outros retornaram também com muitas queixas do tratamento que receberam. Até porque, apesar do aspecto físico igual, sempre foram considerados estrangeiros.

II

A história de Ishikawa começa em 1930, quando, aos 24 anos, recebeu o convite de um amigo para inscrever-se no programa de imigração para o Brasil. Fez um acordo com a revista para a qual trabalhava, comprometendo-se a enviar artigos sobre sua viagem em companhia de uma leva de imigrantes que deixariam Kobe a bordo do navio La Plata Maru.

Ao chegar à hospedaria de imigrantes, em Kobe, Ishikawa depara-se com a miséria de seu povo -- trabalhadores que haviam deixado para trás seus lares, embalados pelo sonho do trabalho e melhores condições de vida além-mar. Abalado com o espetáculo triste que vê, toma a decisão de escrever um romance a partir de sua experiência como imigrante.

Mas não teve forças para colocar de imediato no papel o que via. E adiou a decisão por mais alguns anos. Permaneceu no Brasil, trabalhando seis meses numa fazenda no interior do Estado de São Paulo, até que decidiu retornar ao Japão e à atividade literária. E, finalmente, escreveu Sôbô -- Uma Saga da Imigração Japonesa, que, em 1935, ganhou o Prêmio Akutagawa de Literatura Japonesa, de grande renome no Japão.

O título, de difícil tradução, traz dois ideogramas: sô remete a sôsei, “povo”, mas também pode significar “cor de capim”, “apressar-se” ou “envelhecer”, acepções que podem estar relacionadas à imagem de um povo desprezado. Já bô comporta os significados “imigrante” e “povo subjugado ou massacrado”.

III            

A verdade é que poucos escritores japoneses conseguiram reproduzir com tanta fidelidade o drama das classes baixas japonesas, especialmente os trabalhadores rurais. Foi nesse contexto que Ishikawa derrubou convenções literárias, já que até então os demais escritores preocupavam-se apenas em exaltar a família real, a tradição cultural do antigo Japão e, depois, a classe média urbana e seu acendrado individualismo.

Sob a forma de diário, Ishikawa narra a trajetória de imigrantes -- dependentes de uma magra ajuda de custo do governo japonês e sujeitos à safadeza de agenciadores, pois sempre há quem queira lucrar com a desgraça alheia.

O relato detalhado da viagem coloca a nu a miséria, a corrupção e a discriminação por detrás dos procedimentos sanitaristas e dos interesses mercantis da época. E cresce à medida que os dramas existenciais dos personagens ganham corpo, ao serem obrigados a conviver com outras famílias ou mesmo passageiros da primeira classe do navio ou até mesmo com os costumes ocidentais.

São muitos os dramas, desde as doenças que infestam os porões do navio -- doenças de pele, beribéri, sarna, piolhos -- até a melancolia e a resignação que aumentam com o tédio que têm de suportar por quase dois meses. Eis um trecho do relato de Ishikawa:
“Agora, no espírito dos imigrantes, as fendas começavam a se abrir. Elas eram raras em idosos e casais: era um tipo de solidão que assolava os solteiros. Continuamente começavam a surgir problemas de comportamento moral”.

Em outros momentos, a ignorância cedia lugar a um sopro de consciência social:
“Se ainda estivesse em sua terra natal, continuaria sendo um trabalhador rural honesto e virtuoso, que não tinha consciência de nada”.

IV

Tatsuzô Ishikawa nasceu na província de Akita, região norte do Japão, e cursou Letras na Universidade Waseda, em Tóquio, o que indica que não pertencia exatamente à classe social que retratou em Sôbô. Mas não concluiu o curso, preferindo dedicar-se ao jornalismo como repórter e, depois, à literatura. No prefácio, Sakae Ishikawa, professor doutor da Universidade Sophia, de Tóquio, seu filho, lembra que o pai sempre foi uma alma movida pelo sentido de justiça social, produzindo obras que o tornaram um dos romancistas mais populares de seu país exatamente pelo cunho social que impregnou em seus livros.

Ishikawa publicou ainda Hikage no mura (Aldeia à Sombra), de 1937, em que descreve uma aldeia que submerge com a construção de uma represa. Em Kinkanshorku, de 1975, trata da corrupção no poder conservador. Em Kizudarake no Sanga, de 1964, discorre sobre a destruição ambiental pelo crescimento do sistema econômico. E em Ikiteru Heitai (Os Soldados Sobreviventes), de 1945, divulgou os atos bárbaros praticados pelo exército japonês no continente chinês, durante a Segunda Guerra Mundial. Por esta obra, foi condenado criminalmente pelas autoridades da época.
Depois da Segunda Guerra Mundial, ainda escreveu artigos críticos sobre o comportamento do exército norte-americano, que tiveram a sua publicação proibida por determinação do comando geral das forças de ocupação. “Todos esses fatos demonstram a postura firme e única de Tatsuzô. E o ponto de partida e desenvolvimento de sua produção literária encontram-se em Sôbo”, diz Sakae Ishikawa que, em 1992, teve a oportunidade de viajar para o Brasil e visitar a fazenda em que seu pai trabalhou e viveu.

SÔBÔ -- UMA SAGA DA IMIGRAÇÃO JAPONESA, de Tatsuzô Ishikawa. Tradução direta do japonês de Maria Fusako Tomimatsu, Monica Setuyo Okamoto e Takao Namekata. Cotia: Ateliê Editorial, 259 págs., 2008, R$ 36,00. Site: www.atelie.com.br
E-mail: atelie@atelie.com.br

           

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02/05/2008
O mundo (poético) da viscondessa de Balsemão

I                          

D.Catarina de Lencastre (1749-1824), quem há de saber quem foi?  Só mesmo essa pequena confraria em que os historiadores literários do século XVIII nos tornamos. E, mesmo assim, bem poucos entre nós haveriam de se lembrar que foi a primeira viscondessa de Balsemão, mulher de Luís Pinto de Sousa (1735-1804), governador e capitão-general de Cuiabá e Mato Grosso de 1769 a 1772 e secretário de Estado (vale dizer, primeiro-ministro) no reinado de D.Maria I de 1788 a 1801 e de agosto a dezembro de 1803. E que foi poetisa das mais notáveis ao seu tempo, ainda que não tenha tido a fama que cerca Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, a marquesa de Alorna (1750-1839), uma das principais vozes do Pré-Romantismo.
           
Isso, porém, não foi obstáculo para que a professora Maria Luísa Malato Borralho, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, viesse a dedicar grande parte de seu tempo a escrever a sua biografia, ainda que nas atuais Histórias da Literatura pouca ou nenhuma referência haja a Catarina de Lencastre. Até porque a professora é autora de uma irretocável biografia do teatrólogo Manuel de Figueiredo (1725-1801), seu trabalho de mestrado, Manuel de Figueiredo: uma perspectiva do neoclassicismo português (1745-1777), publicado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (IN-CM), de Lisboa, em 1995, e da edição crítica da Obra Literária (poesia) de José Anastácio da Cunha (1744-1787), em co-autoria com a professora Cristina Alexandra de Marinho, que saiu em dois volumes (com inéditos do autor) pela editora Campo das Letras, do Porto ( v.1,  2001; v. 2, 2006).
           
O resultado de anos de estudo está agora no livro “Por acazo hum viajante…” A vida e a obra de Catarina de Lencastre, 1ª viscondessa de Balsemão (1749-1824), publicado neste começo de 2008 na coleção Temas Portugueses da IN-CM, trabalho orientado pelo professor doutor José Adriano Carvalho, que foi quem teve a idéia de lembrar à investigadora que na Biblioteca Pública Municipal do Porto existiam uns poemas, praticamente, esquecidos de Catarina de Lencastre.

Os poemas não chegavam a uma centena, mas foram a semente de um trabalho que levou a estudiosa a arquivos de Coimbra, Santarém, Funchal, Nantes, Londres e Lisboa e a publicar em 1999 uma primeira impressão. Desse trabalho inicial, resultam agora dois livros autônomos: este, sobre a vida de Catarina de Lencastre, e outro, com a edição crítica de sua obra literária e dramática, a sair na mesma coleção da IN-CM.

           

 

II

Muito tempo antes de o escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) imaginar e escrever o romance-labirinto Se um viajante numa noite de inverno (1979), Catarina de Lencastre escreveu o verso “Por acazo hum viajante…”, que consta de Apólogo, 4ª Colecção, f.267, manuscrito que pertenceu supostamente a um familiar da poetisa e que foi adquirido pela professora Maria Luísa na Livraria Histórica e Ultramarina de Lisboa, em 1992. Ainda que pouco um título tenha a ver com o outro, parece que a autora se deixou levar pela semelhança que os aproximam para escolhê-lo.
           
Mas, acima de tudo, é preciso levar em conta que Catarina de Lencastre, por força do trabalho desempenhado pelo marido, foi também uma grande viajante. Talvez apenas não tenha acompanhado Luís Pinto de Sousa aos cafundós do Brasil, até porque, àquela época, foram raros os governadores que trouxeram família para a América portuguesa. E chegar a Cuiabá por barco, enfrentando corredeiras, cachoeiras, sezões e indígenas hostis, certamente, não seria tarefa que se desse a uma mulher da primeira nobreza.
           
Um dos raros governadores de que me lembro -- por ver registro em documento da época no Arquivo Histórico Ultramarino -- que trouxe família para o Brasil foi Antônio da Silva Caldeira Pimentel, que governou a capitania de São Paulo de 1727 a 1732, mas não se pode comparar as dificuldades -- que já não seriam poucas -- de subir a íngreme e fechada Serra do Mar do porto de Santos para São Paulo com os obstáculos de uma viagem por rios de Araritaguaba, hoje Porto Feliz, às margens do Tietê, até Cuiabá.
           
Os passos de viajante de Catarina de Lencastre por Lisboa, Porto, Londres e Funchal foram revisitados por Maria Luísa mais de dois séculos depois (e não apenas através de seus poemas) bem como os seus primeiros passos em Guimarães, onde ela nasceu, décima filha, ou décima primeira, dos senhores de Vila Pouca, família de muita influência e de conhecida veia literária, que seria descendente de João e Vasco de Lobeira, cujos nomes aparecem ligados ao Amadis de Gaula, de Luís de Camões (c.1524-1580) e até de soror Mariana Alcoforado (1640-1723), embora se saiba que nem sempre essas ligações atribuídas podem ser documentalmente comprovadas.

De qualquer modo, diz a pesquisadora, é improvável que a pequena fidalga tenha crescido sem saber o que eram tertúlias, música e poesia. A verdade, porém, é que documentos, praticamente, não há que possam reconstituir a infância de Catarina, até o seu casamento com Luís Pinto de Sousa, que então já  estava com 37 anos de idade, 14 a mais que a noiva com quem teria se casado antes de partir para o Brasil. A essa época, o marido já havia cursado Matemáticas em Coimbra, viajado por Itália, Alemanha e França e até participado da Arcádia, embora a informação também seja duvidosa.