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Luiz Nascimento

Um Cidadão

Foto: Luiz Nascimento

João caminha, olha pros lados para ver se não tem ninguém. Abre o saco. Tem que colocar todo o corpo. Fica só com as pernas de fora. Vasculha, vasculha. Só três desta vez. Vai em frente. Pára, olha para os lados e vê se não tem ninguém. Abre o saco plástico. Tem que colocar todo o corpo. Fica só com as pernas de fora. Mais duas. Não importa. Vai continuar.
O seu João é um homem da vida real e representa, de certa forma, todos aqueles que tiveram dificuldades na primeira escola ou que nem a freqüentaram ou que sofreram discriminação. São cidadãos que procuram, no lixo da sociedade, sua sobrevivência ao mesmo tempo em que colaboram na transformação do nosso planeta e, conseqüentemente na sobrevivência de todos nós.

O catador de latas. João mede 1,55 metros, tem pernas compridas e tronco curto. Cabeça grande, cabelos lisos, usa óculos grandes e lembra muito o jurado de televisão Pedro de Lara. Daí todos o chamarem carinhosamente pelo apelido, que ele gosta . Diz que é um prazer ser parecido com um artista. Quando o encontrei estava com calças jeans folgadas e camisa com um número maior. Nossa conversa aconteceu na cantina, da Universidade que fica no bloco M do Campus. A cantina lembra mais um container, com uma entrada pela frente e duas portas na lateral com uma coluna de concreto dividindo ao meio com várias mesas e cadeira de plástico nas proximidades. As cadeiras são tão incômodas que é quase impossível ficar sentado por mais de cinco minutos. Contudo, ficamos conversando por mais de duas horas e eu, como um bom ouvinte, não interrompi o relato entusiasmado do Seu João sobre sua atividade:
“Sou um homem que ajuda a manter a cidade limpa e contribuo para reciclar o material que seria jogado fora e poluiria ainda mais o nosso mundo. Sou catador de latinha de alumínio. Ganho em torno de vinte reais por semana. Meu ponto preferido é a Universidade Santa Cecília. Me sinto bem. No Campus há três cantinas e faço meu trabalho diariamente por aqui. Gosto mais dessa que estamos conversando e também é aonde vêm mais estudantes.”
João está chateado porque o preço do quilo da latinha baixou de três reais e vinte centavos para dois reais e noventa centavos.
“O dono do depósito explicou que o dólar caiu e ele teve que baixar o preço do quilo. O mercado inflacionou, tem muita gente fazendo o mesmo e algumas vezes já me roubaram tudo que eu havia arrecadado. Aprendi mais uma lição: levo as latas aos poucos para o depósito. Aos domingos vou à missa, sou devoto de São Jorge. Depois caminho na praia e à tarde vou trabalhar, andando de bar em bar. Paro lá pelas oito da noite.

Longe da escola.“Sabe, eu sempre fui apaixonado pela escola, mas a professora disse aos meus pais que eu tinha muita dificuldade de acompanhar os meus amigos de classe, que eu não nasci para estudar. Meus velhos não tinham muita instrução. Meu pai veio do interior da Espanha e também não era muito de ligar para os estudos. Minha mãe portuguesa, daquelas aldeias, era muito obediente ao marido. Tive que abandonar o grupo antes de terminar o curso primário. Mas sei ler e escrever muito bem. Eu nasci em Casa Branca, no interior de São Paulo, cidade próxima a Ribeirão preto e São José do Rio Pardo, em 20 de novembro de 1940. Fiz sessenta e cinco anos agora e não comemorei. Nesse dia andei pela parte antiga da cidade que hoje está muito bonita. Gosto de pensar na vida , gosto de lembrar da Santos antiga. Viemos para cá, com meus dois irmãos e minha irmã . Acho que tinha 9 anos, não me lembro com certeza . Viemos morar no Marapé perto do morro que na época era bem popular e onde moravam muitos Ilhéus e Espanhóis. Ficamos lá por pouco tempo e então mudamos para o Boqueirão, perto da praia. Trabalhei por vinte e um anos entregando O Diário oficial do Estado de São e o da União. À noite eu trabalhava no parque de diversão que o Santos Futebol Clube mantinha na Avenida Ana Costa próximo à linha do trem. Poucas pessoas se lembram desse parque.
Tenho muita saudade dessa época. Eu tomava conta das crianças e consertava os brinquedos. Nunca mais arrumei emprego fixo desde essa época. Não consigo trabalhar em nenhum lugar, acho que é pela idade ou pelo meu físico. Não sou uma pessoa de presença. Eu me chamo João Roberto Martins, mas sou conhecido por todos como Pedro de Lara “.

Sonhos. “Sinto muito não ter estudado, gostaria de ser advogado, mas me acho um educador, porque todos sabem que esse material será reaproveitado. Alguns estudantes pegam latinhas em outros bares e as deixam num canto da cantina.”
João é conhecido por todos os alunos da Universidade e alguns deixam suas latas vazias em cima da mesa para que ele possa pegá-las. De repente, se levanta da mesa , acena para alguém e é correspondido com um baixar de cabeça.
“Esse é o dono e o fundador da Universidade Professor Milton Teixeira.Sou amigo dele e do filho que é atualmente o presidente do Santos Futebol Clube.”
Pergunto qual é o time dele, ele dá uma enrolada e eu insisto. João mete a mão no bolso, tira a carteira e puxa a carteirinha do Corinthians.
“Não sou um torcedor fanático. Futebol, religião e política não se discutem. Já briguei muito por bobagem”.
Combinamos que nos encontraríamos no dia seguinte para concluir a nossa entrevista. Como um britânico na hora e local marcado, ele estava aguardando.
“Posso fazer um pedido?”, foi logo perguntando.
“Claro”.
“Gostaria que fôssemos para uma sala de aula”
Prontamente atendi ao pedido. O semblante desse homem mudou, se soltou, começou a gesticular. Andava de um lado para outro e falava mais alto que o normal. Os alunos logo começaram a entrar na sala. Continuei a conversa até que o mestre chegou. Apresentei-o e saímos. Quando descíamos as escadas, contou que outro dia havia assistido a uma aula do professor de Educação Física e prestou atenção do começo ao fim.Todos os alunos vieram cumprimentá-lo ao final da aula.
“Sabe, tem uma coisa que vou falar, mais eu não gosto.”
“ Então não fale.”
“ Pra você eu vou me abrir. Quando eu estava lá no grupo escolar, tinha uma quitando, onde eu pegava uma cebola para comer na sala de aula todos os dias antes de ir para a classe. A professora ficava muito brava e mandava eu sair da sala. Hoje eu acho que ela tinha razão. Nenhum dos meus amigos conseguia estudar direito. Eu ainda gosto muito de cebola, mais não consigo comê-las por que já não tenho mais dentes. Eu era um menino muito levado, gostava muito de brincar na sala de aula e ninguém me agüentava. Por isso eu também acho que a escola não me queria. Hoje me arrependo muito do que fiz. Acho que atualmente deva ter maneiras melhores de segurar o aluno na escola.”
Seu rosto mostra toda sua tristeza em não ter estudado. Suas mãos pequenas com seus dedos curtos se esfregavam com força o tempo todo e constantemente coçava a cabeça de maneira um pouco nervosa. Algumas vezes tirava seus óculos para limpar as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Convidei-o para tomar um café. Pedi um curto para mim.
Denise, a copeira, diz: “para ele é puro também. Eu o sirvo sempre”.
Ela comenta que seu João está feliz e ela sabe o motivo.
“Ele está se sentindo um estudante”.
O primeiro gole que ele dá é sem açúcar, observo. Logo adoça o café e o toma com um prazer indescritível, gole por gole, olhando em sua volta para ver se alguém o observava. Seu João olha para Denise e diz,
“Ela não é uma gracinha?”.
“Ele está piscando pra mim”, diz Denise. “Adoro esse homem. Um pouco palhaço, um pouco brincalhão e maroto, mas caloroso”.

Contato: lctn@iron.com.br

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